27 fevereiro, 2011

Aquele inverno.


Os dias e as noites eram iguais. As semanas e os meses emendavam-se. Não havia luz, nem expectativas, nem nada que lhe causasse surpresa ou reação. Era como a morte, se não fosse por aquela velha dor conhecida, já atenuada - como uma espécie de tolerância. Aquele foi o inverno que trouxe as noites mais frias de sua vida. Não bastavam roupas e cobertas. A cama parecia feita de gelo. Seus ossos doíam, e as lágrimas em seu rosto eram o que de mais morno havia. Um frio que vinha de dentro. Um vento gelado, gerado no vazio que havia se formado em sua alma. Que soprava sua paz para bem longe, que sussurrava em seus ouvidos terríveis pensamentos. Durante meses, dormia duas, três horas por noite. E eram horas de pesadelos, que a faziam acordar em sobressalto, apavorada e com o corpo todo dolorido. Então ele chegou, como se desconhecesse ou ignorasse o frio. Ele tinha olhos de sol. Recostada em seu peito quente e macio, sentia lentamente seu corpo amornando e relaxando. Ela já não lembrava o que isso significava, sentir sono. Seus dedos, antes doloridos pela força que faziam ao abraçá-lo, pouco a pouco soltavam sua pele, deixando suaves marcas avermelhadas. Tudo a reconfortava: o cheiro, o toque, o calor, o som de sua voz. Mesmo com medo, entregou-se a uma noite escura sem sonhos, nem bons nem ruins. Mas a escuridão já não lhe causava pavor: bastava estender suas mãos para saber que não estava mais sozinha. Para ter a certeza de que o dia iria nascer novamente, sem trazer tanto peso e tanto pânico. Naquele inverno ele devolveu a ela o calor e a claridade. Ele devolveu a ela a vida real. Foi naquele inverno que ele a salvou.

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